O futebol brasileiro voltou a ser palco de mais um episódio de racismo em 2025. Durante uma partida do Campeonato Brasileiro Feminino entre Sport e Internacional, realizada em Porto Alegre, uma casca de banana foi arremessada em direção ao banco de reservas da equipe pernambucana. A cena, registrada pelas câmeras de televisão e exibida ao vivo, reacendeu o debate sobre um problema que segue presente nos gramados e arquibancadas do país.
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O caso não é isolado. Levantamentos realizados ao longo da última década apontam que as ocorrências de discriminação racial no futebol aumentaram significativamente, revelando um cenário preocupante mesmo diante do avanço das campanhas de conscientização e das iniciativas de combate ao preconceito.
Número de casos dispara em menos de dez anos
Os dados reunidos pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol mostram uma escalada dos episódios registrados no esporte.
Em 2014, primeiro ano do monitoramento sistemático, foram contabilizados 36 casos de racismo envolvendo o futebol brasileiro e competições internacionais. Cinco anos depois, em 2019, esse número saltou para 159 registros.
A pandemia provocou uma redução temporária das ocorrências em 2020, quando foram registrados 81 casos. No entanto, a curva voltou a crescer rapidamente nos anos seguintes: 158 casos em 2021, 233 em 2022 e 250 em 2023, último levantamento consolidado disponível.
Os números revelam que, apesar da maior visibilidade do tema, o racismo continua sendo uma realidade frequente dentro do ambiente esportivo.
Caso no Brasileirão Feminino gera punição
O episódio envolvendo Sport e Internacional ocorreu no fim de março e teve ampla repercussão nacional. Após a identificação da agressão racista durante a partida, a Justiça Desportiva determinou que a equipe feminina do Internacional disputasse os três jogos seguintes com portões fechados.
Paralelamente, o Sport registrou boletim de ocorrência, e o caso passou a ser investigado também na esfera criminal pela Delegacia da Intolerância, em Porto Alegre.
A situação reforçou a discussão sobre a necessidade de punições mais rigorosas e eficazes para combater a reincidência desse tipo de crime nos estádios.
A situação reforçou a discussão sobre a necessidade de punições mais rigorosas e eficazes para combater a reincidência desse tipo de crime nos estádios.
Sul e Sudeste concentram maior número de ocorrências
O levantamento do Observatório também traça um mapa do racismo no futebol brasileiro. Entre 2014 e 2023, o Rio Grande do Sul liderou o ranking nacional, com 89 casos registrados, o equivalente a quase um quarto de todos os incidentes mapeados no período.
São Paulo aparece na segunda posição, com 57 ocorrências. Em seguida estão Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Quando analisadas por região, Sul e Sudeste concentram cerca de 68% dos casos registrados no país.
O Nordeste responde por 16%, enquanto Centro-Oeste e Norte somam os percentuais restantes. Os números, porém, podem representar apenas parte do problema.
Subnotificação amplia dimensão do problema
Especialistas alertam que a quantidade de episódios conhecidos provavelmente está longe da realidade. Grande parte dos casos ocorre em competições amadoras, torneios regionais ou categorias de base, ambientes onde muitas situações acabam sem registro formal ou repercussão na imprensa.
Como os relatórios utilizam apenas ocorrências documentadas publicamente, existe a avaliação de que o volume real de manifestações racistas no futebol brasileiro seja ainda maior. Essa subnotificação dificulta o enfrentamento do problema e impede um diagnóstico completo da situação.
Estrutura histórica ainda influencia o futebol
O debate sobre racismo no futebol vai além dos casos registrados durante as partidas. Pesquisadores e entidades que acompanham o tema apontam que a discriminação está ligada a uma estrutura histórica construída desde os primeiros anos da modalidade no Brasil.
Introduzido inicialmente como um esporte voltado às elites, o futebol demorou a abrir espaço para atletas negros. Durante décadas, jogadores enfrentaram restrições, exclusões e barreiras sociais dentro dos próprios clubes.
Embora a presença de atletas negros tenha transformado a história do esporte brasileiro, especialistas observam que ainda existe uma baixa representatividade em cargos de comando, como treinadores, dirigentes e gestores esportivos.
Caso Luighi ampliou repercussão internacional
Poucas semanas antes do episódio ocorrido no Brasileirão Feminino, outro caso gerou indignação no continente. Durante uma partida da Libertadores Sub-20 entre Palmeiras e Cerro Porteño, no Paraguai, o atacante Luighi foi alvo de gestos racistas vindos das arquibancadas.
O episódio ganhou repercussão internacional após o jogador demonstrar indignação ao comentar o ocorrido ao final da partida.
A punição aplicada ao clube paraguaio ficou restrita a multa financeira e à proibição da presença de torcedores em jogos da competição, medida considerada insuficiente por diversos setores ligados ao combate ao racismo no esporte.
Conscientização avança, mas desafio permanece
Nos últimos anos, clubes, federações, atletas e torcedores passaram a discutir o racismo de forma mais aberta. Campanhas educativas, manifestações antes das partidas e ações institucionais se tornaram mais frequentes.
Apesar disso, o aumento dos casos registrados demonstra que a conscientização, sozinha, ainda não foi capaz de eliminar o problema.
O combate ao racismo no futebol segue dependendo de um conjunto de medidas que inclui educação, prevenção, identificação dos responsáveis e punições efetivas.
Enquanto episódios como os registrados em Porto Alegre e na Libertadores continuarem acontecendo, o futebol brasileiro seguirá enfrentando um dos maiores desafios de sua história fora das quatro linhas.


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