sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Festa de Iemanjá: a tradição que atravessa gerações em Salvador

Festa de Iemanjá: a tradição que atravessa gerações em Salvador

Fotos: Bruno Concha e Jefferson Peixoto | Secom-PMS


A cada 2 de fevereiro, ainda antes do nascer do sol, Salvador desperta ao som dos fogos, dos cânticos e da movimentação de milhares de pessoas que seguem rumo ao Rio Vermelho. Vestidos de branco e azul, devotos, turistas, pescadores e curiosos compartilham o mesmo destino: homenagear Iemanjá, a Rainha do Mar e uma das figuras mais reverenciadas das religiões de matriz africana.

Mais do que uma festa religiosa, a celebração tornou-se um símbolo da identidade cultural baiana. Ao lado do Carnaval e da Lavagem do Bonfim, a Festa de Iemanjá ocupa lugar de destaque entre as maiores manifestações populares de Salvador, mantendo viva uma tradição centenária marcada pela fé, pela ancestralidade e pela resistência cultural.

Como nasceu a Festa de Iemanjá

A origem da celebração está ligada aos pescadores do Rio Vermelho e remonta às primeiras décadas do século passado. Registros históricos apontam que, em 1923, pescadores da região realizaram uma oferenda para a divindade das águas diante da escassez de peixes no mar. O gesto representava um pedido de proteção e fartura para quem dependia da pesca como sustento.

A partir daquele momento, a homenagem passou a ser repetida anualmente e ganhou força entre os moradores da comunidade.

Na época, a entrega das oferendas acontecia dentro da programação da Festa de Nossa Senhora de Santana, tradicional celebração católica realizada na região desde o século XIX. Os pescadores pediam autorização à Igreja para prestar homenagens à orixá, convivendo em um ambiente marcado pelo sincretismo religioso.

Com o passar dos anos, divergências entre lideranças católicas e praticantes das religiões de matriz africana fizeram com que a homenagem a Iemanjá ganhasse autonomia. A festa passou a seguir seu próprio caminho e se consolidou definitivamente no dia 2 de fevereiro.

De tradição local a símbolo da Bahia

O crescimento da festa ocorreu principalmente a partir da década de 1960. A celebração começou a aparecer em músicas, livros e manifestações artísticas produzidas por importantes nomes da cultura baiana, como Caetano Veloso, Maria Bethânia e Jorge Amado.

A projeção nacional ampliou a visibilidade da festa e ajudou a transformar uma tradição originalmente ligada aos pescadores do Rio Vermelho em um dos maiores eventos populares da Bahia.

Hoje, a celebração atrai visitantes de diversas regiões do Brasil e do exterior, reforçando a força da cultura afro-brasileira e da religiosidade presente na formação do povo baiano.

Como acontece a celebração

Os preparativos começam ainda na noite do dia 1º de fevereiro, na tradicional Casa do Peso, também conhecida como Casa de Iemanjá.

Durante a madrugada, milhares de pessoas já ocupam as ruas do bairro. Por volta das 4h da manhã, uma queima de fogos marca oficialmente o início da festa.

Ao longo do dia, devotos depositam flores, perfumes, sabonetes, espelhos, joias e diversos presentes destinados à Rainha do Mar.

Ao lado da Casa do Peso é montado um grande barracão que abriga a oferenda principal preparada por pescadores e representantes de terreiros. O espaço também recebe centenas de balaios repletos de presentes deixados pela população.

O momento mais aguardado acontece no fim da tarde, quando barcos seguem para alto-mar levando as oferendas. O cortejo marítimo emociona moradores e visitantes e simboliza a entrega dos pedidos, agradecimentos e demonstrações de fé à orixá.

Festa de Iemanjá: a tradição que atravessa gerações em Salvador

O papel dos pescadores

Mesmo com a dimensão que a festa alcançou, os pescadores continuam sendo protagonistas da celebração. São eles que organizam grande parte da logística necessária para transportar os presentes e conduzir as embarcações que levam as oferendas mar adentro.

A participação da comunidade pesqueira mantém viva a ligação histórica entre a festa e aqueles que, há mais de um século, deram início à tradição que hoje movimenta Salvador.

Quem é Iemanjá

A presença de Iemanjá no Brasil está diretamente ligada à chegada dos povos africanos escravizados, especialmente os de origem iorubá, trazidos para o país durante o período colonial.

Nas religiões afro-brasileiras, Iemanjá é associada às águas, à maternidade, à proteção e ao cuidado. É considerada mãe de diversos orixás e uma das figuras mais importantes do candomblé.

Tradicionalmente representada com vestes azuis e brancas e ligada ao mar, tornou-se símbolo de acolhimento, proteção e força espiritual.

Sua imagem atravessou gerações e permanece profundamente presente no imaginário popular brasileiro, especialmente nas regiões costeiras.

Uma tradição que resiste ao tempo

Mais de um século depois das primeiras homenagens realizadas pelos pescadores do Rio Vermelho, a Festa de Iemanjá continua reunindo multidões e preservando sua essência.

A celebração resiste às mudanças do tempo porque representa muito mais do que uma manifestação religiosa. Ela reúne memória, cultura, ancestralidade e pertencimento.

É no encontro entre o mar, a fé e a tradição que Salvador renova, ano após ano, uma das mais importantes expressões da identidade afro-brasileira.

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