Salvador é conhecida por suas igrejas centenárias, pelo Elevador Lacerda e pela paisagem única entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. O que muita gente não imagina é que uma parte significativa da cidade simplesmente não existia quando a capital baiana foi fundada.
Onde hoje circulam carros, trabalhadores e turistas no bairro do Comércio, havia mar. Muito mar. Ao longo de quase quatro séculos, sucessivos aterros avançaram sobre as águas da Baía de Todos-os-Santos, conhecida pelos povos tupinambás como Kirimurê, remodelando completamente a geografia da primeira capital do Brasil.
O resultado foi a criação de um dos mais importantes centros comerciais do país e de uma área que ajudou a definir o desenvolvimento econômico de Salvador.
A história desses avanços sobre o mar ajuda a explicar não apenas a formação urbana da cidade, mas também a relação de Salvador com o porto, com o comércio e com o próprio crescimento econômico do Brasil colonial e imperial.
A história desses avanços sobre o mar ajuda a explicar não apenas a formação urbana da cidade, mas também a relação de Salvador com o porto, com o comércio e com o próprio crescimento econômico do Brasil colonial e imperial.
Quando o Comércio ainda era mar
Nos primeiros anos após a fundação de Salvador, em 1549, a área hoje ocupada pelo Comércio era formada por uma estreita faixa de terra entre a encosta e a Baía de Todos-os-Santos.
O local era conhecido como Bairro da Praia e possuía dimensões muito diferentes das atuais. A maior parte da região que hoje abriga avenidas, prédios históricos e equipamentos públicos ainda estava submersa.
Segundo o arquiteto e urbanista Nivaldo Andrade, doutor em Arquitetura e Urbanismo e curador de uma exposição sobre o tema, os primeiros aterros começaram ainda no século XVI. A motivação era essencialmente econômica.
Comerciantes perceberam rapidamente a importância estratégica da região para a movimentação de mercadorias e passaram a criar pequenos avanços sobre o mar para construir trapiches, armazéns e áreas de atracação. Essas intervenções foram o embrião do que mais tarde se transformaria no principal centro comercial da cidade.
O porto que impulsionou Salvador
A escolha da área não foi por acaso. Enquanto a Cidade Alta concentrava funções administrativas, religiosas e residenciais, a Cidade Baixa reunia as condições ideais para o funcionamento do porto.
Foi dali que partiram e chegaram embarcações que mantinham a ligação da colônia com Portugal. Também foi pela região que circularam mercadorias fundamentais para a economia colonial e, posteriormente, milhares de africanos escravizados trazidos para o Brasil.
Os primeiros investimentos incluíram armazéns, oficinas de construção naval, ferrarias e estruturas ligadas à atividade portuária. Também foram construídas edificações religiosas e sistemas defensivos, demonstrando a importância estratégica da área para a sobrevivência da cidade recém-fundada.
As primeiras soluções para vencer a encosta
Com o crescimento do Bairro da Praia surgiu um desafio que ainda hoje marca a paisagem de Salvador: a ligação entre as cidades Alta e Baixa.
Separadas por uma escarpa com cerca de 60 metros de altura, as duas áreas exigiam soluções para permitir a circulação de pessoas e mercadorias.
As primeiras respostas vieram por meio das ladeiras da Conceição, da Preguiça e da Misericórdia. Depois surgiram outras conexões, como a Ladeira do Taboão.
Mas as soluções mais inovadoras foram os chamados guindastes, estruturas semelhantes a planos inclinados que ajudavam a transportar cargas entre o porto e a parte alta da cidade.
Um dos mais importantes foi o Guindaste dos Padres, administrado pelos jesuítas e instalado na região onde hoje funciona o Plano Inclinado Gonçalves.
Oito ciclos que mudaram a cidade
Estudos do arquiteto Marcus Paraguassu identificam pelo menos oito grandes ciclos de aterros realizados entre 1550 e 1920. Inicialmente, essas intervenções eram promovidas por comerciantes, ordens religiosas e proprietários interessados em ampliar áreas para armazenagem e atividades econômicas.
Com o passar dos séculos, o próprio poder público passou a liderar projetos cada vez mais ambiciosos. Durante muito tempo, porém, o porto de Salvador permaneceu fragmentado, formado por diversos cais particulares e sem uma estrutura unificada.
A situação começou a mudar apenas no século XIX, quando o crescimento econômico exigiu uma modernização mais profunda da infraestrutura portuária.
O maior aterro da história de Salvador
A transformação mais radical ocorreu no início do século XX. Impulsionadas por projetos ligados ao político baiano Joaquim José Seabra, as obras ampliaram de forma inédita a área do Comércio.
O gigantesco aterro avançou sobre a Baía de Todos-os-Santos entre a atual Rua Miguel Calmon e a região onde hoje funciona o Porto de Salvador.
A intervenção criou uma nova configuração urbana para o bairro e praticamente triplicou parte do território então existente.
Foi nesse contexto que surgiram avenidas mais largas, ruas retas e edifícios que se tornariam símbolos da modernização da capital baiana.
A diferença ainda pode ser observada atualmente. Nas áreas mais antigas, próximas à encosta, predominam ruas estreitas e sinuosas. Já nas regiões aterradas durante o século XX, o traçado urbano segue padrões mais modernos.
A transformação mais radical ocorreu no início do século XX. Impulsionadas por projetos ligados ao político baiano Joaquim José Seabra, as obras ampliaram de forma inédita a área do Comércio.
O gigantesco aterro avançou sobre a Baía de Todos-os-Santos entre a atual Rua Miguel Calmon e a região onde hoje funciona o Porto de Salvador.
A intervenção criou uma nova configuração urbana para o bairro e praticamente triplicou parte do território então existente.
Foi nesse contexto que surgiram avenidas mais largas, ruas retas e edifícios que se tornariam símbolos da modernização da capital baiana.
A diferença ainda pode ser observada atualmente. Nas áreas mais antigas, próximas à encosta, predominam ruas estreitas e sinuosas. Já nas regiões aterradas durante o século XX, o traçado urbano segue padrões mais modernos.
Patrimônio que preserva a memória da cidade
O crescimento do Comércio transformou a região no principal centro de negócios do país durante décadas. O bairro abrigou construções emblemáticas, como a sede da Associação Comercial da Bahia, referência da arquitetura neoclássica, e o Instituto do Cacau, considerado um dos marcos da arquitetura moderna baiana.
Em 2009, parte da região recebeu proteção patrimonial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), garantindo a preservação de elementos arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos que ajudam a contar a história da formação da cidade.
Hoje, o Comércio reúne edifícios históricos, igrejas centenárias, equipamentos culturais e estruturas modernas, funcionando como um retrato vivo das diferentes fases de crescimento de Salvador.
A exposição que revela uma Salvador desconhecida
Quem deseja entender melhor essa transformação pode visitar a exposição instalada na Casa das Histórias de Salvador. A mostra apresenta fotografias, mapas e documentos que ajudam a visualizar como a cidade avançou sobre as águas de Kirimurê ao longo dos séculos.
Um dos destaques é o mapa que detalha os oito ciclos de aterros responsáveis por criar grande parte do território que hoje compõe o bairro do Comércio.
A própria Casa das Histórias de Salvador faz parte dessa narrativa. Quando o prédio foi construído, entre as décadas de 1860 e 1870, estava praticamente à beira-mar. Hoje, após sucessivas expansões territoriais, encontra-se distante da linha d'água. É uma prova concreta de que a Salvador atual foi moldada não apenas pela natureza, mas também pela ação humana.
Mais do que um bairro histórico, o Comércio é a evidência de uma cidade que literalmente nasceu do mar e transformou sua geografia para se tornar uma das mais importantes capitais do país.
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