sábado, 6 de janeiro de 2024

Folia de Reis mantém viva tradição que marcou a Bahia

Folia de Reis mantém viva tradição que marcou a Bahia
Fotos: Bruno Concha e Jefferson Peixoto | Secom-PMS

Poucas celebrações ajudam a compreender tão bem as origens das festas populares baianas quanto a Folia de Reis. Realizada tradicionalmente em 6 de janeiro, a comemoração encerra o ciclo natalino e preserva costumes que atravessaram gerações, reunindo fé, música, cultura popular e manifestações que influenciaram diretamente diversas celebrações que hoje fazem parte da identidade da Bahia.

A tradição remete ao relato bíblico da visita dos Reis Magos ao menino Jesus. Guiados pela estrela que indicava o local do nascimento de Cristo, Melchior, Gaspar e Baltazar teriam partido do Oriente levando ouro, incenso e mirra como presentes. O episódio simboliza o reconhecimento de Jesus como salvador de todos os povos e deu origem ao Dia de Reis, celebrado por comunidades católicas em diferentes partes do mundo.

Em Salvador, a data ocupa lugar especial no calendário religioso e cultural. Conhecida popularmente como Festa de Reis ou Folia de Reis, a celebração acontece principalmente no bairro da Lapinha e preserva tradições que ajudaram a moldar diversas manifestações populares que surgiram posteriormente na capital baiana.

Tradição que encerra o ciclo natalino

Na tradição católica, o Dia de Reis marca o encerramento das festividades de Natal. É nessa data que costumam ser desmontados os presépios e retiradas as decorações natalinas.

Em diversos países de forte tradição católica, especialmente na América Latina, a data possui importância semelhante ou até superior ao Natal. Em algumas localidades, inclusive, a troca de presentes acontece em 6 de janeiro, numa referência direta aos presentes oferecidos pelos Reis Magos ao menino Jesus.

Em Salvador, a programação religiosa se concentra na Paróquia Nossa Senhora da Conceição da Lapinha, onde missas, celebrações e manifestações culturais movimentam o bairro desde a véspera da festa.

Os tradicionais Ternos de Reis

Uma das expressões mais marcantes da celebração são os Ternos de Reis, grupos que percorrem ruas e comunidades levando músicas, bandeiras, estandartes e apresentações inspiradas na visita dos Reis Magos.

Na noite de 5 de janeiro, após a missa, os grupos saem pelas ruas da Lapinha em cortejo, reunindo elementos do folclore religioso brasileiro. Entre os destaques está o tradicional Terno da Anunciação, ligado à própria paróquia e facilmente reconhecido pelo estandarte vermelho ornamentado com detalhes dourados.

Outro grupo bastante conhecido é o Rosa Menina, formado por moradores de Pernambués, que também ajuda a manter viva uma tradição transmitida entre gerações.

As apresentações unem religiosidade e manifestações culturais populares, incorporando música, samba de roda, bandeiras coloridas e elementos característicos das festas tradicionais baianas.

A influência nas festas populares da Bahia

Pesquisadores da cultura popular apontam que a Folia de Reis exerceu influência direta sobre diversas manifestações que surgiram posteriormente em Salvador.

Os antigos ternos e ranchos populares ajudaram a consolidar modelos de cortejos, organização de alas, uso de estandartes e apresentações coletivas que, ao longo do tempo, foram incorporados por blocos culturais, grupos carnavalescos, afoxés, quadrilhas juninas e outras expressões populares.

Além da dimensão religiosa, a festa também desempenhou papel importante na ocupação dos espaços públicos da cidade, fortalecendo tradições comunitárias e a participação popular em celebrações de rua.

Por isso, estudiosos da cultura baiana costumam tratar a Folia de Reis como uma das matrizes das festas populares que marcaram a formação cultural de Salvador.

Programação religiosa mantém tradição secular

A preparação para o Dia de Reis começa antes da data principal. A programação inclui o tradicional tríduo, composto por três dias de celebrações religiosas que antecedem 6 de janeiro.

No dia festivo, acontecem missas ao longo do dia, além das apresentações dos Ternos de Reis, que percorrem ruas do bairro e realizam homenagens diante dos presépios.

Outro aspecto que marca a celebração é o incentivo à solidariedade. Durante o período festivo, fiéis costumam participar de campanhas de arrecadação de materiais destinados a ações sociais da comunidade.

Folia de Reis mantém viva tradição que marcou a Bahia

Igreja da Lapinha guarda patrimônio único

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Lapinha, fundada em 1771, é um dos templos mais singulares do país.

Embora mantenha fachada de inspiração neogótica, o interior apresenta características do estilo mourisco, resultado da influência artística e arquitetônica herdada da presença islâmica na Península Ibérica.

A combinação de elementos cristãos com traços decorativos inspirados na tradição moura faz da igreja um patrimônio único no Brasil. O templo possui inclusive inscrições em árabe em seu interior, fato raro em edificações religiosas brasileiras.

Ao longo dos séculos, a igreja tornou-se referência para as celebrações da Epifania do Senhor em Salvador e segue sendo o principal palco da Folia de Reis na capital baiana.

Fé e cultura atravessam gerações

Mais do que uma celebração religiosa, a Folia de Reis representa a continuidade de uma tradição que atravessou séculos sem perder sua essência.

Em um período marcado pela valorização das festas populares e do patrimônio imaterial, a manifestação preserva símbolos, músicas, cortejos e costumes que ajudam a contar parte da história da Bahia.

Entre estandartes, cantos e celebrações comunitárias, a festa mantém vivo um legado cultural que influenciou gerações e continua ocupando lugar de destaque na identidade popular baiana.

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