sábado, 27 de janeiro de 2024

Festa de São Lázaro: fé, cura e sincretismo vivo

Festa de São Lázaro: fé, cura e sincretismo vivo
Fotos: Bruno Concha | Secom-PMS

A fé toma conta das ruas da Federação muito antes do início das celebrações religiosas. Entre velas acesas, flores, pipoca e promessas, milhares de pessoas transformam a Festa de São Lázaro em um dos encontros mais marcantes da religiosidade popular baiana. Realizada anualmente no último domingo de janeiro, a celebração reúne católicos, adeptos das religiões de matriz africana, turistas e moradores em uma manifestação que atravessa gerações e mantém viva uma das mais fortes expressões de sincretismo religioso de Salvador.

Ao lado da Lavagem do Bonfim e da Festa de Santa Bárbara, a Festa de São Lázaro ocupa lugar de destaque no calendário das festas populares da capital baiana. A devoção está ligada à busca por cura, proteção e agradecimento por graças alcançadas, atraindo pessoas de diferentes origens e crenças para um mesmo espaço de fé.

Uma tradição marcada pela busca da cura

A ligação entre São Lázaro e a cura ajuda a explicar a força da celebração ao longo dos anos. Em frente à igreja, é comum encontrar devotos distribuindo flores, realizando banhos de pipoca e cumprindo promessas feitas em momentos difíceis da vida.

O tradicional banho de pipoca, associado a Omolu e Obaluaê, tornou-se uma das imagens mais conhecidas da festa. Para muitos participantes, o ritual simboliza limpeza espiritual, renovação e fortalecimento diante das adversidades.

A presença dessas manifestações populares transforma o entorno da Igreja de São Lázaro e São Roque em um grande espaço de convivência religiosa, onde diferentes tradições coexistem e compartilham um mesmo sentimento de esperança.

O encontro entre duas tradições religiosas

A Festa de São Lázaro é uma das celebrações que melhor representam o sincretismo religioso baiano. Dentro da igreja, a programação é marcada por missas, orações, procissões e bênçãos. Do lado de fora, devotos realizam práticas ligadas à tradição de Omolu e Obaluaê, orixás associados às doenças, à cura e à transformação.

Essa convivência tem raízes profundas na história de Salvador. A região onde foi construída a igreja manteve ligação com africanos escravizados que chegavam à cidade durante o período colonial. Muitos desembarcavam debilitados e recebiam acolhimento e cuidados na área, fortalecendo a associação do local com a proteção dos enfermos.

Ao longo dos séculos, a identificação entre São Lázaro e os orixás ligados à saúde consolidou uma tradição que permanece viva até hoje.

São Lázaro, Omolu e Obaluaê

No imaginário popular, São Lázaro é visto como protetor dos enfermos, dos idosos e dos animais doentes. Sua imagem costuma retratá-lo como um homem marcado pelo sofrimento, apoiado em um cajado e acompanhado por cães.

Nas religiões de matriz africana, Omolu e Obaluaê representam forças ligadas à cura, à renovação da vida e ao domínio sobre as enfermidades. Em muitas tradições religiosas, a associação entre essas figuras tornou-se parte fundamental da identidade da festa.

Essa relação ganhou ainda mais relevância em períodos de crises sanitárias que marcaram a história da cidade. Durante epidemias e momentos de grande preocupação com a saúde coletiva, a devoção a São Lázaro e a Omolu tornou-se ainda mais presente entre os baianos.

Festa de São Lázaro: fé, cura e sincretismo vivo

Ex-votos e histórias de gratidão

Assim como ocorre em outros importantes templos religiosos de Salvador, a Igreja de São Lázaro abriga uma sala de ex-votos e espaços dedicados aos testemunhos de graças alcançadas.

Fotografias, objetos pessoais e lembranças deixadas por devotos representam agradecimentos por recuperações de saúde, superação de dificuldades e conquistas consideradas resultado da fé.

Esses registros ajudam a preservar a memória da celebração e reforçam o significado da festa para milhares de pessoas que retornam ao local todos os anos.

Uma festa que mobiliza Salvador

A programação começa logo cedo com a tradicional alvorada de fogos. Ao longo do dia, missas e procissões movimentam a Federação, reunindo uma multidão de fiéis.

A caminhada religiosa segue em direção à região do Campo Santo antes de retornar à igreja para o encerramento das celebrações. Paralelamente, o entorno do santuário permanece tomado por manifestações populares ligadas à tradição afro-brasileira.

No sábado que antecede a festa principal, a lavagem das escadarias já anuncia a chegada das comemorações, reforçando o caráter popular da celebração.

Patrimônio da religiosidade baiana

Mais do que uma festa religiosa, São Lázaro representa um encontro entre história, cultura e espiritualidade. A celebração preserva tradições construídas ao longo de gerações e reafirma uma das características mais marcantes da identidade baiana: a convivência entre diferentes expressões de fé.

Entre procissões, banhos de pipoca, promessas e agradecimentos, a festa segue reunindo milhares de pessoas todos os anos, mantendo viva uma herança cultural que faz parte da história de Salvador e da própria formação do povo baiano.

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