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| Fotos: Bruno Concha | Secom-PMS |
A Lavagem de Itapuã é muito mais do que uma festa popular. Em um bairro conhecido por suas tradições, pela forte ligação com o mar e pela identidade cultural preservada ao longo das gerações, a celebração se transformou em um símbolo de pertencimento. É uma festa construída pelos moradores, vivida intensamente pela comunidade e marcada por rituais que atravessam décadas sem perder a essência.
Considerada uma das mais tradicionais manifestações populares de Salvador, a Lavagem de Itapuã encerra o calendário das festas de largo da capital baiana antes da chegada do Carnaval.
Uma festa que começa antes do amanhecer
Enquanto grande parte da cidade ainda dorme, Itapuã já está em movimento. A celebração começa ainda durante a madrugada com a saída do tradicional Bando Anunciador, uma orquestra de sopro que percorre as ruas convidando moradores e visitantes para o dia de festa.
Pouco depois, por volta das 5h, a alvorada de fogos marca oficialmente o início das comemorações. Em seguida acontece a Lavagem Nativa, quando são lavadas as escadarias e a entrada da Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, localizada na Praça Dorival Caymmi, em frente ao mar.
O momento ganha ainda mais significado com a participação das Ganhadeiras de Itapuã, grupo que preserva a memória cultural do bairro por meio das cantigas e do samba de roda. Ao lado dos músicos do Bando Anunciador, elas ajudam a transformar a frente da igreja em um grande encontro de fé, música e tradição.
Após a lavagem, moradores e visitantes participam do tradicional café da manhã comunitário, uma prática iniciada por Dona Niçu e mantida por sua família ao longo dos anos.
Um dos aspectos que mais diferenciam a Lavagem de Itapuã das demais festas populares de Salvador é justamente o envolvimento da comunidade.
Grande parte dos grupos que participam dos desfiles nasceu no próprio bairro. Entre eles estão as Ganhadeiras de Itapuã, o bloco As Santinhas, o grupo Mulheres que Incentivam e diversas entidades culturais que ajudam a manter viva a identidade local.
Outro diferencial é a duração da festa. As atividades começam ainda na madrugada e seguem até o início da noite, reunindo manifestações culturais, celebrações religiosas e apresentações populares.
Ao longo do dia, as baianas realizam a tradicional lavagem das escadarias da igreja ao meio-dia, um dos momentos mais aguardados da programação.
Assim como acontece na Lavagem do Bonfim e na Festa de Iemanjá, a celebração em Itapuã também possui um lado dedicado à diversão popular.
Durante a tarde, blocos culturais e grupos tradicionais tomam conta das ruas do bairro. Neste ano, mais de 35 entidades participaram da programação, entre elas o bloco afro Malê Debalê, Mulheres que Incentivam, Baleia Rosa do Amor, Os Itapuanzeiros, Bloco Jacutinga, As Santinhas e a Puxada Itapuanzeira.
A festa já teve características de pré-carnaval e contou com a presença de trios elétricos até 1999, quando esse formato foi encerrado para preservar as tradições originais do evento.
Homenagens que valorizam quem faz a história
Desde 2011, a organização da Lavagem de Itapuã homenageia personalidades que contribuíram para a história e o fortalecimento da comunidade.
Entre os nomes já reconhecidos estão a ministra da Cultura Margareth Menezes e o presidente de honra do Malê Debalê, Josélio de Araújo.
Mais recentemente, as homenagens foram destinadas à ganhadeira Terêsa Conceição Santos e ao educador Ricardo Monteiro, figuras ligadas diretamente à vida cultural e social do bairro.
A Baleia Rosa do Amor e a criatividade de Itapuã
Outro personagem tradicional da festa é a Baleia Rosa do Amor. Criada originalmente em 1987 pelos amigos Waly Salomão e João Loureiro, a iniciativa surgiu como uma homenagem bem-humorada ao passado da região, que foi um importante ponto de caça de baleias entre os séculos XVII e XIX.
A proposta era simples e simbólica: imaginar uma baleia que saísse do mar para participar da festa e retornasse em segurança após a folia. Revitalizada em 2003, a Baleia Rosa do Amor continua sendo uma das atrações mais aguardadas da programação.
Uma história que atravessa gerações
Pesquisas históricas apontam que a origem da festa está ligada à devoção dos pescadores locais a Nossa Senhora da Purificação ainda no final do século XIX.
As referências mais antigas encontradas sobre a celebração datam de 1898, período em que Itapuã ainda era um local distante do centro de Salvador e de acesso limitado.
Ao longo das décadas, a devoção passou a ser direcionada a Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, mantendo a forte ligação entre religiosidade, cultura popular e comunidade.
Um dos elementos mais importantes preservados até hoje é justamente o Bando Anunciador. Presente em diversas festas tradicionais da Bahia no passado, o costume praticamente desapareceu e sobrevive de forma marcante em Itapuã.
O futuro garantido pelas novas gerações
Além das tradições centenárias, a Lavagem de Itapuã também chama atenção pela presença constante das famílias. É comum ver crianças vestidas de baianinhas acompanhando mães, avós e parentes durante as celebrações. Mais do que um detalhe visual, essa participação representa a continuidade de uma herança cultural construída ao longo de gerações.
Entre o som dos atabaques, os sambas de roda, as homenagens, as manifestações religiosas e a alegria que toma conta das ruas, a Lavagem de Itapuã segue mostrando por que continua sendo uma das festas mais autênticas de Salvador.
Mais do que um evento no calendário cultural da cidade, ela permanece como uma celebração da memória, da fé e da identidade de um bairro que faz questão de manter suas raízes vivas.
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